— Nós não voamos por falta de asas, e sim por falta de acreditarmos que podemos voar, veja Ray contemple a sabedoria divina, contemple sua obra mais que perfeita. – Os Anjos continuavam descendo, um deles vinha em nossa direção, olhei para os outros, cada qual estava se aproximando de outras pessoas, eram muitas, estavam posicionadas assim como nós, comecei a compreender o que elas faziam ali, senti o vento de suas enormes asas, eles estavam semi-nus, suas partes eram cobertas por um pequeno tecido branco, como uma espécie de cueca ou similar. Ele pousou cerca de uns 10 metros à nossa frente, calado, ficou ali como se estivesse esperando, ajoelhou-se e começou a orar de cabeça baixa, a pessoa que segurava o bebê começou a andar, caminhou em direção ao Anjo, deu um beijo no bebê, esticou os braços e entregou ao Anjo que estava de joelhos, ele o segurou com uma das mãos e com a outra, puxou a cabeça da moça até perto dele, me parece que disse algo em seu ouvido. Olhou para nós, acenou como um gesto de despedida, bateu suas asas em direção às nuvens, todos eles se foram, muitos deles, cada um com seu bebê, confesso que em todo momento eu estava arrepiado, uma emoção indescritível. Todos ali estavam emocionados, mas a moça que levou o bebê ao Anjo estava muito mais, ela foi amparada pelos outros que ali estavam, Vehuel me pegou pelo braço.

— Venha! Vamos deixar eles trabalharem, se você quiser podemos voltar novamente outro dia. – Eu estava maravilhado, aquelas pessoas cuidavam dos bebês, dos mesmos bebês que foram mortos, abandonados, bebês doentes, eles curavam e depois os enviavam de volta.

— Me conte Vehuel, porque estou aqui?

— Você está aqui porque o Pai quer que esteja, por enquanto é somente isso que posso lhe falar, existem segredos Ray, segredos que somente uma alma consegue decifrar, o segredo da vida é acreditar nas pessoas mesmo que elas não creiam nelas mesmas, algumas daquelas crianças, voltaram para as mesmas mães.

— Mas como isso é possível? Se elas os mataram, como pode Deus ainda assim os enviarem para elas? Não entendo.

“As pessoas falam de aborto como se falassem de futebol, é claro as pessoas que falam já nasceram.”

— Sim Ray, não precisamos entender nosso Pai, mas precisamos aceitar que ele sempre quer o melhor para cada ser vivo, muitas vezes ele nos testa, eles nos dá um fardo para carregarmos, somente para provarmos que somos capazes de suportá-lo. – Fomos conversando até a porta de saída, parei em frente a ela, virei-me e olhei aquele corredor enorme, me veio uma dor enorme no peito, todos os bons sentimentos que havia sentido minutos atrás se foram, sentia meu coração sendo esmagado, sentia-me como sendo culpado, sentia-me como se eu fizesse parte daquilo, percebi que eu estava na terra e não havia feito nada para evitar o sofrimento daqueles bebês, novamente me encontrava chorando. Fui abraçado por Vehuel, ele abriu a porta, fomos caminhando em direção à grande árvore, em um de seus galhos havia uma criança, não tive como não percebê-la, ela estava cabisbaixa, retirava folhas de um galho seco e os jogava no chão, era fácil perceber que ela estava triste, mas o que mais me chamou a atenção fora a cor de sua túnica, era azul celeste, a mesma cor que eu usava, fui surpreendido por Vehuel o chamando.

— Olá Suzan, tudo bem com você? Venha desça daí, quero que conheça meu amigo Ray. – Ele foi se aproximando do tronco da árvore para pegar a criança no colo, era uma linda menina, devia ter seus seis anos de idade, tinha os cabelos loiros e longos, além da cor de sua túnica o que mais me chamou a atenção fora que ela não conversou, veio em silêncio de cabeça baixa.

— Vamos Suzan, cumprimente meu amigo, Ray essa é a Suzan, Suzan esse é o Ray, assim como você Suzan ele chegou ontem aqui. – Não se preocupe Ray, ela ainda não se enturmou com as outras crianças, mas aos poucos tudo se ajeita. – Disse sorrindo enquanto caminhávamos em direção à casa, Vehuel segura Suzan pela mão, eu tentava me entortar para vê-la, mas ela se escondia, às vezes por frente, ora por trás.

— Suzan, vá lavar as mãos, o almoço deve estar quase pronto. – Deu um beijo na menina, ela foi em direção à Rute que estava perto da porta fazendo gestos com as mãos, como se a estivesse chamando.

— O que aconteceu com ela Vehuel?

— Uma longa história Ray! Tenho certeza que ela estará pronta em breve.

— Porque ela usa uma túnica da mesma da minha?

— Bem Ray, digamos que de alguma forma você a conheça. – Estranhei pois, tentei me lembrar dela e nada me vinha à mente.

— Não, eu não consigo me lembrar dela, se a conhecesse eu tenho certeza que lembraria, ela é muito linda, difícil esquecermos uma criança tão bela.

— Você consegue se lembrar de quem era na terra? O que você fazia, ou até mesmo de sua família?

— Não, não consigo me lembrar de nada, não me diga que ela é minha filha? – Interroguei-o puxando seu braço para trás.

— Não Ray, não é sua filha, você não teve filhos na terra.

— Não tive? Mas eu era casado? – Repliquei com tom de tristeza.

— Sim você já foi casado, mas como a maioria dos casais, vocês quebraram a aliança feita perante Ele. – Agora era a vez dele responder com um tom de tristeza, enquanto sentávamos em um banco de madeira, percebi que o gramado estava vazio, as crianças que brincavam ali já haviam saído.

— E porque me separei Vehuel? Foi algo que eu fiz, ou que ela fez? Como era minha esposa? – Indaguei-lhe com extrema curiosidade, já que eu não conseguia lembrar-me de nada sobre mim mesmo.

— Bem …!

— Ela é linda, não somente da beleza exterior, mas também como pessoa humana, honesta, carinhosa, romântica, fiel e acima de tudo, te amava incondicionalmente, ela era uma flor que fora apanhada do jardim celeste exclusivamente para você Ray, ela foi escolhida a dedo para ser o seu par. – Eu novamente com os olhos encharcados fiquei tentando imaginá-la.

— Lembro-me como se fosse hoje Ray, o dia em que vocês se conheceram. Eu estava ao se lado quando seus olhares se cruzaram, eu tive a plena convicção que seriam feitos um para o outro.

— Percebo que não fui um bom esposo, o que eu fiz de errado? Conte-me por favor Vehuel.

— Ray, você fez tudo errado, no começo assim como na maioria dos casamentos, as coisas iam bem, com o passar do tempo você se perdeu, passou a não mais tratá-la com respeito, não honrava sua casa, bem como ela como esposa. Você se contaminou Ray. Enquanto ela orava por você, você estava em locais na qual eu não gostaria de tê-lo acompanhado. – E ele continuou falando, e quanto mais ele falava mais eu me sentia como um traste, minha cabeça não parava de latejar, eu já tive uma esposa escolhida por Deus, e não soube guardá-la, que tipo de pessoa eu era? Ou eu sou?

— É por isso que estou aqui neste lugar? Para aprender a dar valor nas pessoas? Digo dar valor a ela?

— Não, você está aqui por um motivo maior Ray, nosso pai traçou planos maiores para você, fazem seis meses que você separou-se de Helena, ela ainda não te esqueceu, você é lembrado todas as noites nas orações dela, e mesmo você a tendo feita sofrer muito, ela é humilde o suficiente para pedir a Ele que cuide de você, e foram os pedidos de ajuda dela que fizeram você estar aqui, foram as orações dela que o Pai ouviu. – Aquilo me cortou ainda mais por dentro, como pude perder uma mulher assim?

— Helena! Helena, então ela se chama Helena, lindo nome.

— Onde estou agora Vehuel? Digo, onde estou lá na terra, você me disse que eu ainda não morri, sendo assim meu corpo físico ainda está lá, correto?

— Sim correto, seu corpo físico ainda está lá.

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