— Ray eu sou Rute, conte comigo com o que precisar. – Disse ela juntando as mãos como em uma oração, ela falava com uma convicção tremenda. Foi então que em um lampejo, recordei-me de tê-la visto quando sai do meu quarto, ela estava de joelhos ao pé da cama, tive a certeza que era ela pois, seus cabelos eram brancos como algodão, eram tão brancos que se confundiam ao encontrarem o branco de sua túnica. Comecei então a perceber que todos ali estavam de branco, olhei para minha túnica segurando-a bem perto dos olhos, somente eu estava com as vestimentas daquela cor, era um azul claro, um azul celestial talvez. Mas era uma cor única, um contraste bonito, todas as vestimentas eram exatamente iguais, mangas longas, não tão longas como uma camisa, desciam alguns centímetros abaixo dos cotovelos, eu estava curioso para saber porque minha túnica era daquela cor.

— Ray assim que terminar gostaria de lhe mostrar o local. – Disse Vehuel ainda com um pedaço de bolo de milho saindo pelo canto da boca.

— Nossa eu não sabia que anjos comiam tanto. – Disse sorrindo a ele.

— Quantos anos você tem Ray?

— Eu acho que tenho uns trinta anos Vehuel, mas você já sabia disso. – Respondi a ele olhando sobre meu ombro esquerdo, fiz um olhar de cinismo para respondê-lo, já que ele diz estar comigo e saber tudo que irei dizer.

— Então Ray, fazem 38 anos que eu não tomo esse maravilhoso café celestial, perdoe-me se estou me comportando como um esfomeado, ou demonstrando uma gula exagerada. – Disse ele em tom de brincdeira.

— Mas porque tanto tempo? Você não poderia te vindo de manhã até aqui tomar um café e voltar?

— Sim eu poderia Ray, mas não poderia correr o risco de comprometer minha missão. Eu precisava estar com você o tempo todo, poderia ser no momento de minha ausência, poderia ser em algum segundo longe de ti que você o chamaria.

— Chamaria quem Vehuel?

— Chamaria ao nosso Pai, imploraria por ele Ray, apesar dos 38 anos ao seu lado, você não havia me sentido até o dia do seu acidente.

— Nossa! É verdade o acidente, não consigo me lembrar o que aconteceu, me diga Vehuel, já que você estava comigo, me diga o que aconteceu por favor. – Supliquei a ele puxando sua túnica ao mesmo tempo que segurei sua mão.

— Acalme-se Ray, já terminou seu café?

— Sim terminei, me conte por favor o que aconteceu naquele dia, me diga eu estou morto?

— Por enquanto o que posso te dizer é que você ainda não morreu, mas irá depender somente de você continuar vivo ou não.

— Então tem algo sobre o que estava escrito na porta do quarto que eu estava?

— Sim tem, venha! Vejo que terminou seu café, venha quero lhe mostrar o local, e ainda quero lhe apresentar algumas pessoas. – Disse já se levantando e me puxando pelo braço, ao olhar dos lados, percebi que as outras mesas já haviam sidas retiradas, somente havia nossa mesa naquele imenso salão.

— Onde foram todos Vehuel? E como retiraram todas as mesas e eu não percebi?

— Quase sempre as coisas acontecem sem que nós percebamos Ray, isso é uma falha dos seres humanos. – E continuou comentando enquanto caminhávamos pelo enorme salão, nos dirigíamos em direção à uma grande porta que ainda se encontrava pequena, devido a distância.

— Ray as pessoas deveriam prestar mais atenção em tudo ao seu redor, desde a simples queda de uma folha, às mudanças dos filhos dentro de casa, os pais estão perdendo os filhos para as drogas, e eles não percebem quando chegam tarde em casa, não percebem as atitudes deles, não percebem as mudanças mais simples, as famílias que são a base que o Pai mais preza estão sumindo, a família como deveria existir está sendo levada por valores sem valor algum. Mas venha conhecer nosso jardim, esse é o local mais usado pelas crianças, depois do riacho é claro. – Disse ele com um tom de voz triste, foi fácil perceber sua tristeza, já que até então ele sempre sorria após dirigir-se a mim, saímos pela porta enorme, vislumbrei de perto o que havia visto da janela de meu quarto, um gramado enorme, do lado direito haviam flores amarelas, não sei que tipo de flores são essas, mas eram lindas, elas faziam um corredor até onde eu conseguia enxergar, parecia ser uma espécie de divisão. Do lado esquerdo existiam dezenas de crianças pulando corda e correndo uma atrás da outra, a alegria e as vozes delas contagiavam todo o ambiente, era como se uma espécie de energia boa estive por todo o lado.

— Sentiu isso Ray? Venha vamos brincar com elas, vamos! – Me puxando pelo braço levou-me até perto das crianças, elas novamente me cercavam, uma delas me deu a ponta da corda, começou girar enquanto outras revezavam o salto, eu confesso que nunca havia me sentido tão bem, mudei de lado passando a corda para Vehuel, e comecei pular, foram várias tentativas sem sucesso, as crianças adoraram e gargalhavam, até que peguei o jeito conseguindo uma seqüência de uns 10 saltos sem me enroscar.

— Nossa já estou cansado. – Disse a ele ofegante pela atividade física.

— Venha Ray, você até que foi bem, vamos ver se precisam de ajuda com os bebês.

— Bebês? Vocês tem bebês por aqui?

— Sim temos Ray e muitos por sinal, eles chegam até nós dia e noite, e temos cuidar deles, curá-los e prepará-los.

— Eu achava que crianças iriam direto para o céu quando morressem, ou aqui é o céu? Vai me fala a verdade!

— Elas vão, mas essas crianças são muito mais especiais, são crianças que ainda não estão prontas para o céu. – Chegamos em uma espécie de barracão ela estava a cerca de 300 metros da casa maior que era onde estávamos, eu não tinha notado aquele barracão, tinha uma grande árvore que tirava a visão dele, o barracão era muito maior de perto, assim que nos aproximamos veio uma mulher, ela tinha a fisionomia um tanto exótica, seu rosto apesar de não representar ser de idade, sua face era magra, como se estivesse doente, ela passou por nós de cabeça baixa, achei que ela estava ali para nos receber ou algo assim, eu parei e olhei para trás, ela me olhou e vi que seus olhos derretiam-se em lágrimas, tentei voltar em direção a ela, foi como se eu a afugentasse, saiu correndo em direção à grande árvore.

— O que foi aquilo Vehuel? Porque ela estava chorando e ainda saiu em disparada?

— Aquilo que viste chama-se arrependimento Ray, arrependimento.

— Como assim arrependimento, mas arrependimento de quê?

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