— Arrependimento do que você verá agora, você terá a oportunidade de conhecer o que há de pior na terra. – Ao falar isso ele abriu a porta daquela casa, barracão, sei lá como chamar aquele local, tinha um grande corredor, as paredes eram brancas como os cabelos da Rute, existiam repartições, centenas de repartições senão milhares, as paredes que separavam um espaço do outro deveriam ter no máximo um metro e meio de altura, não havia dado dois passos em direção ao corredor, senti uma mão em meu ombro, olhei e vi uma senhora negra, ela deveria ter no máximo um metro de meio de altura, um tanto quando gordinha e com um olhar de mãe.

— Seja bem vindo Ray, é uma honra tê-lo por aqui, me disseram que você viria nos visitar hoje. – Falou isso enquanto abraçava-me, não foi um abraço qualquer, era uma abraço materno, um daqueles de mãe mesmo, apesar de ter vivido a maior parte de minha vida em um orfanato, eu sentia que aquele era um abraço de mãe, mas esse tipo de carinho a gente sente bem lá no fundo da alma.

— Meu nome é Lila e vocês chegaram em ótimo momento, hora do papá, vocês devem ter encontrado com Samantha lá fora, perdoem-na pela postura dela, apesar do tempo que ela está por aqui ainda não conseguiu assimilar o que aconteceu. – Fomos andando em direção às repartições, meu espanto foi tremendo, em cada vão das pequenas paredes, haviam berços, ao lado de cada berço uma pessoa, parei em frente ao primeiro berço, havia um bebê com a cabeça deformada, a pessoa ao lado a acariciava com extremo cuidado e conversava baixinho perto dele, minha reação foi imediata, meu coração gelou na hora que vi o bebê, minha voz não saiu, paralisei completamente, tentei dizer algo e não consegui, dei um passo atrás, coloquei as mãos no rosto e chorei, tentei correr, mas minhas pernas travaram, meu choro era acompanhado de soluços, voltei até a porta de entrada, queria sair dali, Lila veio até mim sorrindo.

— Isso Ray pode chorar, não há problema algum nisso. – Enquanto segurava minha mão firmemente.

— Que lugar é esse Lila? – Perguntei a ela enquanto enxugava minhas lágrimas com minha própria túnica.

— Aqui é o berçário dos Anjos Ray, temos milhares de bebês, aqui cuidamos deles até que fiquem prontos.

— Prontos para quê Lila?

— Eles serão Anjos assim como Vehuel, ele será um Anjo da Guarda.

— De onde eles vieram?

— Esses bebês são frutos de abandonos por parte de seus pais, são bebês encontrados mortos em rios, valas, em lixeiras, são frutos de abortos, do descaso com a vida, eles não tiveram a chance de tentar, são almas ceifadas, não tiveram a primeira chance Ray. Eles são trazidos para cá, aqui cuidamos deles, os alimentamos e os curamos, alguns são enviados de volta a suas famílias, outros são preparados para serem Anjos da Guarda de alguém, cada um tem uma missão. – Conversávamos enquanto me conduzia pelo corredor e continuou falando.

— Esse por exemplo nasceu com menos de um quilo, sua mãe era viciada em crack, a criação tentou ajudá-lo, mas estava fraco demais para prosseguir, e se conseguisse teria uma vida muito sofrida também. – Ao ver aquela criança, minúscula, frágil, eu imaginara como alguém poderia fazer isso a uma criança.

— Sim Ray, as pessoas fazem isso todos os dias, nossas crianças estão nascendo viciadas, sejam em fumo, álcool ou drogas, mas o pior de tudo é a falta de amor, a falta de alicerce, a falta de uma boa direção, muitas vão bem até uma certa idade, mas quando se tornam adolescentes elas simplesmente se perdem, tudo isso por falta de amor e de uma direção na vida, e essa tarefa é de inteira responsabilidade dos pais. – Passamos por outro bebê e ela continuou falando.

— Esse lindo mocinho por exemplo foi arrancado do ventre da mãe com cinco semanas, dizem que isso chama-se gravidez indesejada, e o pior que alguns governos apoiam esse tipo de procedimento.

— Nossa mas com cinco semanas? Ele já está totalmente formado! – Repliquei a ela com ar de espanto.

— Sim Ray, para que ele saísse do ventre de sua mãe, o médico o matou e retirou pedaço por pedaço. Essa é a nossa função, cuidar deles, alimentá-los, mas não somente de alimento físico e sim alimento da alma, em breve ele voltará para a terra, tem um casal que sonha em serem pais, eles não tem condições dos tratamentos caros da medicina humana e serão agraciados com esse lindo bebê.

— Então vocês aqui sabem tudo o que ainda vai acontecer? Conseguem prever o futuro?

— Não Ray, nós somente sabemos o que nosso Pai quer que saibamos, não podemos prever, adivinhar o que irá acontecer, a vontade é dele, nós somente a acatamos. – Respondeu Vehuel um pouco mais atrás de nós, ele havia ficado brincando com um dos bebês. Chegamos a uma sala com várias pessoas reunidas em torno de algo, não conseguia ver o que protegiam ou encobriam, Lila se juntou às pessoas e fez o sinal com uma das mãos me chamando, apontava para o lado dela, como se estivesse falando “venha aqui do meu lado“. Aproximei-me, posicionei-me ao lado de Lila, percebi que todos estendiam as mãos sobre um berço, não um berço como os outros, ele era da mesma cor da minha túnica, era fácil perceber a diferença, já que todos os outros eram brancos, as pessoas sorriam para o bebê, alguns acenavam as mãos como um gesto de despedida, forcei um pouco para olhar entre as pessoas, estiquei a cabeça e vi um lindo bebê, ele sorria muito, um sorriso daqueles espontâneos, um sorriso de agradecimento. Lila se retira, ela caminha até uma janela, percebo que ela está chorando, me aproximo dela.

— Lila tem algo errado com o bebê?

— Não Ray, o bebê está ótimo, ele está indo para a terra, é que a cada despedida eu fico assim, sou uma manteiga derretida mesmo. – Disse sorrindo e enxugando as lágrimas.

— Venha ver ele indo embora, é lindo, venha rápido! – Ao me virar percebi que o bebê e as pessoas que estavam em torno dele não estavam mais ali. Saímos da sala rapidamente para conseguir alcançar Lila, que mesmo sendo baixinha era muito rápida, subimos uma escadaria, ao chegar no final dela, estávamos em uma espécie de laje, era espaço muito grande, eu não conseguia ver o fim dela, as pessoas estavam ali, uma delas segurava o pequeno bebê nos braços, outras olhavam para o céu. Escutei um barulho vindo das nuvens, um barulho de vento, como uma águia batendo as asas, eram anjos alados, muitos deles, rompiam as nuvens ao bater suas asas, eram muitos anjos, impossível de se contar, uma cena de arrepiar.

— Nossa era assim que eu imagina os Anjos. – Disse a Vehuel sorrindo a ele, e ele apoiando-se em meu ombro disse-me.

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